Green Ray*17 | Lux curated by The Black Madonna
Fecha: 28/07/2017
Hora: 23:59
The Black Madonna
'A música de dança precisa de riot grrrls. De Patti Smith. Precisa de DJ Sprinkles. A música de dança precisa de algum desconforto com a sua euforia. A música de dança precisa de sal nas suas feridas. De mulheres com mas de 40 anos. De DJs que amamentam e precisam de adormecer os filhos antes de irem tocar. A música de dança precisa de queers e adolescentes mal-dispostos que estão fartos disto tudo. A música de dança precisa de escritores, críticos, académicos e historiadores. A música de dança precisa de pessoas pobres e de pessoas que não têm os sapatos certos para conseguir entrar no clube. A música de dança precisa de camisas sem gola. De pessoas que trabalharam toda a semana. De pessoas que aparecem antes da meia-noite porque não têm como pagar bilhete. A música de dança não precisa de mais status quo.'
As palavras são de Black Madonna, o feeling é o de todos os que respiram isto pelas razões certas. Marea inspira-nos, não apenas por ser uma disc jockey incrivelmente talentosa, mas por ser uma agente de mudança, embaixadora pelas vozes oprimidas do nosso underground global e agitadora cultural no Smart Bar de Chicago, equipa que integrou como residente em 2012 ao lado de Derrick Carter e Frankie Knuckles e que hoje programa, levando àquela cabine nomes tão essenciais como Honey Dijon, Honey Soundsystem ou DVS1.
Uma outsider desde a infância, Marea, filha de mão bibliotecária e pai músico de blues, enfrentava bullies na escola dia sim, dia sim. Isolava-se com o seu walkman na casa de banho para ouvir Madonna e Deee-Lite e perder-se num mundo de fantasia. Numa entrevista de 2016, partilha que o bullying não podia ter tido um papel maior no seu processo de se dissolver na música. Mas a luz vence sempre a sombra, e Black Madonna saiu do outro lado: aos 16, dois anos depois de ter sido levada a uma rave ilegal, desistiu da escola para vender mixtapes - andou com os amigos de rave em rave, aprendeu a misturar discos em 1997, e desde aí que trata a midwest rave scene por tu. Influenciada por DJs como Derrick Carter, DJ Heather, Boo Williams, Terry Mullan ou Paul Johnson, mudou-se para Chicago. Passou anos a tocar em festas undeground, a receber quase nada - ou nada. Mas a aprender. Muito.
Há cinco anos lançou 'Exodus', um hino disco house tão exuberante como eficaz, que foi tocado pelos melhores DJs de Chicago, a sua terra prometida, e firmou o seu lugar no panteão da house americana. Cedo choveram bookings para a Europa. O primeiro? Panorama Bar. O resto é História. A História que é urgente, daqui em diante, ser lida nos livros. A História das mulheres, da comunidade LGBTQI+, a história negra, a história dos artistas da periferia - a História, central para a música de dança, em que Black Maddona não só se insere mas não se cansa de contar, enfrentando com coragem a força silenciadora de uma cultura cada vez mais saturada pela comercialização. É uma honra receber a sua voz, tanto enquanto DJ como enquanto curadora. Nas as suas palavras: 'as pessoas tendam a sobre-romantizar a música de dança, mas os momentos de transformação na pista, esses momentos são reais'. Vamos.
Heidi
Do balcão da Phonica para as melhores pistas de dança do mundo; Heidi tornou-se símbolo da melhor loja de vinyl londrina enquanto aí trabalhou, em meados dos anos 2000, vinda do Ontário, Canadá. Presença notável na loja, Heidi rapidamente passou de desconhecida a uma das novas DJs mais respeitadas da cidade, tendo sido a primeira numa sucessão de DJs para quem trabalhar na Phonica foi uma rampa de lançamento e não apenas uma oportunidade para estar mais junto dos novos lançamentos.
Como produtora, a sua estreia deu-se na Let's Get Physical, de M.A.N.D.Y. e Booka Shade, bem no pico de relevância da editora - ainda trabalhava na loja. Rapidamente teve de abandonar o seu dayjob para se pôr à estrada e cumprir um calendário de actuações exigente que se mantém até aos dias de hoje. Criou a sua própria editora Heidi presents Jackathon Jams, cujo impacto lhe trouxe várias residências e noites por todo o mundo - incluindo actuações no Fabric, Watergate, Festival Movement em Detroit, residências em Ibiza entre muitas outras - e é um dos pesos pesados da club culture global, além de cúmplice frequente da curadora deste Green Ray, The Black Madonna.
Honey Dijon
Miss Honey Dijon pertence a uma estratosfera de DJs muito especial. Dotada de técnica e um conhecimento da música incríveis, Dijon respira sem problemas nas alturas do DJing onde, para a maioria, o ar rareia. Fá-lo parecer fácil - e talvez para si o seja, se considerarmos que o seu talento a levou a ter como mentor nada menos que uma lenda viva do house de Chicago, Derrick Carter. Outra influência que cita é a do mago nova-iorquino Danny Tenaglia que, a partir da cabine, a inspirou pela forma como cria drama na pista de dança e pelos riscos que corre para levar os corpos dançantes ao êxtase.
Honey Dijon é, no entanto, muito mais que uma DJ excepcional com um som único forjado apartir destes dois centros da house music. É um símbolo vivo do espírito inclusivo que guiou esta cultura desde a sua génese - desde Knuckles e Levan a Vasquez e Tenaglia. É uma mulher transgender acolhida na aceitação não-binária que o clubbing oferece - e que define esse mesmo clubbing, quando este é bem feito. Grooves certeiros, rough como Chicago e dramáticos como NYC, articulados para criar uma atmosfera fluida e livre, uma pista enquanto espaço de entendimento e amor comunal - é isto que nos traz e que encaixará na perfeição com a caixa mágica de Sta Apolónia.
HAAi-
HAAi é a palavra holandesa para tubarão, e esse significado até podia fazer sentido para esta DJ em ascensão: num panorama em que se tratam os maiores por 'big fish', ser um tubarão é a meta de muitos. Mas esta disc jockey australiana, há meia década baseada em Londres, foi buscar o seu nome artístico ao título de uma faixa da banda indonésia The Panthers. Quando se fixou na capital inglesa era vocalista da banda de rock psicadélico Dark Bells e muito embora não fosse propriamente clubber, coleccionava discos, sobretudo dos anos 60 e 70, coisas africanas e turcas de paleta psych.
Até que uma viagem a Berlim a fez apaixonar-se inexoravelmente pela club scene. Em paralelo, começou uma residência semanal no Ridley Road Market Bar em Dalston, que lhe limou arestas até à perfeição durante dois anos de compromisso e devoção, com sets longos a tocar Motown, disco, afro beat e faixas dançáveis de todos os cantos do mundo. Hoje é residente do Phonox, um dos melhor programados clubes Londrinos, onde funde a sua skill técnica impecável à sensibilidade de quem passou anos atrás dos pratos a fazer o que ama. Uma estreia que se adivinha surpreendente.
DJ Rahaan
Muito se falou de Chicago nos últimos anos e fomos assistindo a um regresso às raízes da house por parte de meio mundo, mas Rahaan nunca precisou regressar a nada - nunca saiu. Esteve lá, no início, na sua Chicago. Viveu os primeiros anos da música house directamente na fonte, quando ainda não era um género mas vários, tocados juntos no clube Warehouse pelas mãos de Frankie Knuckles. Testemunhou Lil Louis ou Ron Hardy, nos 80's, com amigos, na pista de dança - e tem muito para nos contar.
Como produtor lançou em selos de culto como Stilllove4music, de Jerome Derradji, a Jiscomusic, Disco Deviance, a Four Play entre outros, tanto com originais como com re-edits. Como DJ respira com a mesma liberdade dos seus mentores; cruza a melhor música negra de dança sem a rigidez estilística que cristalizou tantos dos seus contemporâneos, mas dotado de um instinto letal para comandar corpos dançantes apartir de rodelas de plástico negro. Realeza de Chicago a não perder.
- Inês Coutinho
\\ ENGLISH //
The Black Madonna
“Dance music needs riot grrrls. Dance music needs Patti Smith. It needs DJ Sprinkles. Dance music needs some discomfort with its euphoria. Dance music needs salt in its wounds. Dance music needs women
Lux Frágil
Avenida Infante Dom Henrique
Lisbon